segunda-feira, 25 de maio de 2009

Macau de 1966


Chegámos a Hong Kong já o sol tinha baixado no Horizonte. A confusão de luzes fixas e aquelas que acendiam e apagavam estimulam um ambiente de antagonismo. Os milhentos luzeiros coloridos, de anúncios e outros, que fazem daquele lugar um presépio, espalham-se montanha acima, reflectindo-se nas águas escuras da baía num espectáculo, talvez único no mundo. Os anúncios de cores berrantes onde o vermelho sobressai, parecem pregados num fundo negro que só de dia sabemos ser uma montanha. Por outro lado, se os nossos sentidos visuais conseguem abranger de uma forma geral tudo o que nos rodeia, o nosso cérebro dificilmente cataloga essa miscelânea que por serem cores, nos confundem e que por serem luzes nos atraem. Ali fiquei na amurada do barco, no meio da escuridão olhando extasiado aquela explosão de luz e cor que me encandeava e me não deixava descansar. Que se passaria para lá daquela cortina de luz? E a minha mente perversa soltava-se e deleitava-se pensando em mulheres de olhos de amêndoa dançando com os seus longos vestidos de seda natural, que as tapavam até ao pescoço, mas cujas rachas deixavam em liberdade as suas longas e sensuais pernas.
De manhã acordei com o barco a deslocar-se suavemente. Saí do meu camarote, na esperança de novo desfrutar algo de diferente. Na verdade tudo era novo para mim e desde os juncos que atravessavam a baía num tráfico caótico até à cor das águas do porto que se me não falha a memória era o Victoria Harbour, tudo era diferente da noite anterior. Toda a magia das luzes tinha desaparecido, e no seu lugar uma névoa cobria a manhã desta cidade. O paquete deslocava-se muito lentamente, naquela água cor de café com leite, por entre toda esta discrepância, do ontem e do hoje, da noite e do dia, indiferente aos sentimentos dos novatos que não compreendem que de noite “todos os gatos são pardos” e se admiram quando de dia os encontram com cores diferentes.
O Oriente ali estava em tudo o seu esplendor. Um mar juncado (acho que a palavra vem do nome dos barcos) de Juncos e outras pequenas embarcações que servem de habitação a uma multidão que ali nasce e cresce multiplica-se e morre. Esta é verdadeiramente uma população flutuante, primeiro porque em qualquer altura se deslocam para outras paragens e segundo porque flutuam sobre as águas do cais.
Por entre ilhotas cujas costas caíam abruptamente sobre o mar, forradas de um luminoso verde, relva de jardim e no espaço de pouco mais de uma hora, chegámos a Macau. A travessia do estuário do rio das Pérolas a que também dão o nome de Mar Lingdingyang faz a ligação entre Macau e Hong Kong que se situam nas extremidades opostas deste delta. O nome dado pelos Portugueses a este Território foi o de Cidade do Nome de Deus, mas se este não perdurou. A deturpação do nome de uma Deusa Chinesa cujo templo se encontrava virado para a Baía definiu para sempre o nome da cidade. O templo da Deusa A-MÁ que se encontra na baía, GAO em chinês, terá dado o nome de A-MÀ GAO (a baía de A-MÁ) que terá evoluído para o nome de Macau. Em todo este percurso através dum emaranhado de ilhas cruzámo-nos com ferries que fazem o transporte de passageiros de Macau para Hong Kong e os rápidos Jet-foils ou hidrofoils que em vinte minutos fazem uma travessia que outro barco qualquer fará em nunca menos uma hora.
in "retalhos de uma vida em Timor"
mco

1 comentário:

pontorouge disse...

Olá!
também tenho um blog, no Rio de Janeiro - Brasil, e ficaria muito feliz com sua visita.

beijo rouge

pontorouge.blogspot.com