quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


MALHAS QUE O IMPÉRIO TECEU…

Para Lurdes Lino



Não sou por natureza muito dado a sonhos, dizem os poetas que o sonho comanda a vida, mas o meu sonho foi com alguém que morreu. Sobre ele escrevi em Agosto de 2008 algumas curtas palavras no paradigma de “Em Memória”. Escrevi sem ter sequer a esperança de que alguém lesse ou comentasse algo sobre esse escrito, mas mercê da visibilidade que dá o Face Book, volvidos que foram quase nove anos alguém leu e mostrou interesse em saber mais algo sobre o falecido.

A morte, dirão, é um tema tão normal, tão comum, que escrever um epitáfio sobre alguém já não é nenhuma novidade, só que o epitáfio é escrito sobre a tumba duma pessoa e geralmente começa com “Aqui Jaz…”.

No caso do meu sonho, ELE não teve direito a nenhum epitáfio, pois que, não teve também direito a nenhum túmulo, nem mesmo sei se foi enterrado em vala comum, ou se foi lançado pela encosta abaixo da montanha onde foi assassinado.

Joaquim Inês Martins de seu nome, e “cowboy Lino” de sua alcunha, foi morto quando, prisioneiro que era da Fretilin, tentou fugir, saltando de uma camioneta onde seguia de Maubisse para Same (Timor, dezembro,1975), sendo ferido de morte por um atirador, dum Jeep que acompanhava a camioneta.

Ele como outros prisioneiros seguia amarrado com as mãos atrás das costas, e, quando depois de terem dominado os guardas tentaram fugir saltando da viatura em movimento, caiu na estrada sendo abatido, enquanto que outros lograram as suas intenções. Isto foi-me contado por prisioneiros que sobreviveram, aos massacres de Aileu e Same.

Não era minha intenção escrever sobre ele nem sobre os remotos tempos dos anos de 1975 de má memória, mas o pedido de sua prima, pedindo que sobre ele fizesse uma resenha de sua vida e morte, me levaram a escrever mais do que quereria.

Chegou a Timor depois de um mês de viagem no paquete “Timor” integrado na Companhia Independente de Polícia Militar 1579, e ao fim de dois anos de comissão resolveu lá ficar.

Irrequieto, com um espírito brincalhão, e trabalhador, prosperou, com uma camioneta que por ter dispositivo de tração conseguia chegar a locais de difícil ou mesmo impossível acesso, o que além de o tornar um campeão das estradas de Timor, davam jus à sua alcunha de      cowboy.

Casou com uma rapariga chinesa que vivia em Ermera, centro de café, e como a família de sua mulher tinha uma loja de comércio, rapidamente começou vivendo desafogado tendo comprado outra camioneta e uma casa em Díli na região de Taibesse.

Quando dos acontecimentos de 11 de Agosto, (princípio da guerra civil) juntou-se às forças da UDT (partido Timorense) contra a Fretilin, e com os restantes elementos da UDT ficou na zona do Palapaço onde se situava o comando do partido. A sua casa ficava na zona de Taibesse onde se encontrava o comando da Fretilin. Numa noite temendo pela sorte da sua família, deslocou-se para lá e foi capturado.

Na prisão de Taibesse sofreu com todos os outros prisioneiros torturas e maus tratos, e quando da Invasão de Díli pelas forças Indonésias foi levado para Aileu. Lá assistiu ao assassínio de muitos prisioneiros e ele como muitos tremiam de medo quando alguns dos carrascos olhavam para eles mais fixamente, ou os seus nomes eram falados ainda que sem motivo algum.

Quando o comando da Fretilin, mercê do avanço Indonésio, se começou a deslocar para o interior de Timor, o terror dos prisioneiros aumentou.

  

Amanhecer vivo era o desejo de todos os que passavam a noite sem dormir com todos os sentidos em alarme permanente e atentos a todos os ruídos que pudessem denunciar que algum guarda bêbado os pudessem torturar, ou pior matar.

Quando o comando da Fretilin resolveu deslocar-se para Same, resolveram que os prisioneiros iriam com eles e seriam julgados num tribunal do povo. Aí todos esperavam que Same fosse o último sítio onde poderiam ter esperança de viver. Todos eles sabiam que iriam ser mortos quando lá chegassem. Todos estavam de acordo que a viagem de Aileu para Same era a última oportunidade de fugirem.  No caminho tentaram a fuga, mas ele tinha as mãos amarradas atrás das costas, estava bastante fraco e vestido com uma lipa (pano tradicional de Timor), não conseguiu equilibrar-se ao saltar da viatura e desequilibrou-se caindo no meio da estrada onde foi fuzilado por guardas que seguiam num jeep à retaguarda.

Paz à sua alma.



P.S. Eles tinham razão em tentar fugir, pois que outros prisioneiros, dezenas deles, foram mortos dentro das salas de aula da Escola Municipal de Same para onde os guardas deitaram granadas.

Estes acontecimentos foram-me contados por sobreviventes desses tempos infernais.

 mco








domingo, 3 de janeiro de 2016


A VIDA PASSA PARA TODOS, MAS, NÃO DE IGUAL MODO.


 

Em 18 de Dezembro do ano anterior, voltei ao passado. A um passado  há muito ido, o qual, só por um motivo muito forte, voltaria a estar presente.

Esta viagem no tempo foi um ápice. Num segundo, revi uma panóplia de momentos, que tem o nome de recordações, as quais tem a força de reunir aqueles que ficam, em volta daqueles que partem.

Refiro-me ao enterro de um amigo de longa data. Ele, terminou o seu presente nesta dimensão, projectando toda a sua história futura, somente para o passado.

Conheci-o muitos anos atrás, quando ele era um garoto espigadote e bem malandro e eu, apesar de ser um pouco mais jovem do que sou hoje, seria, no entanto, mais velho que ele, uns bons treze anos.

A sua morte, foi inesperada, mesmo para um jovem de sessenta anos.

 

Mas ele, não morreu assim simplesmente, foi morto, foi assassinado pelas "malhas que a vida tece”, não estaremos todos, enfiados dentro dessas mesmas malhas?

 

O nome herdou-o de seu pai, ilustre enfermeiro, dos poucos que na antiga Provincia de Timor, ia colmatando a falta de médicos,  com vantagem em muitos casos.

 

FERNANDO DE CARVALHO GONÇALVES.

 

Ele era mais conhecido por Fernandinho Gonçalves, muito conhecido em Díli pelo seus colegas e amigos com a carinhosa alcunha de "puto malandro", pelo seu fraco físico, que era compensado pela vivacidade e por uma alegria de viver que  estampava um constante e radioso sorriso, na sua face.

 

Já partiste meu irmão. A tua energia e desassossego fez com que atravessasses o mundo várias vezes, qual andarilho, na procura do sentido perdido, da tua existência.

A vida que foi madrasta para contigo, libertou-te por fim, e estarás por ventura descansando, na Paz que te faltou aqui, neste mundo.

O teu espírito irrequieto tem agora vastos espaços onde espraiar a sua liberdade. Não mais as dores tomarão conta do teu corpo e da tua alma, pois ela agora é livre e não cabe dentro da benquerença ou da malquerença de ninguém.

 

DESCANÇA EM PAZ.
mco

A ÁRVORE NATAL DE TIMOR

A árvore de Natal de Timor é polémica na boca dos Timorenses, que mercê da época Natalícia que se atravessa, apenas falam devagar e baixinho em forma de oração ou ladainha.

 



 

A árvore de Natal de Timor não tem luzes, dizem uns.

Não há eletricidade, dizem outros.

Não há dinheiro, dizem todos.

Há dinheiro, mas não chega para todos.

A árvore está inclinada, dizem alguns.

Para a esquerda, ouve-se sussurrar.

Qual que?  inclinada está! mas NÃO p’rá esquerda.

Para aonde? Alguns perguntam.

Para os “Kóes” dos tubarões.

E para a boca dos avós “Lafaek”.

Tudo, a costumada má língua de Díli, e,

tudo por causa da Árvore de Natal.

A árvore de Natal de Timor,

Que nem sequer é um pinheiro,

Pois em Timor não há pinheiros, só ai-kakeus,

E, a má língua continua como música de fundo,

Tapando o choro das crianças,

sem leite e

sem pão.

Sem brinquedos para brincar.

Sem doces para comer,

sem roupa nova para estrear, quando vão com os pais à missa do galo.

Sem Perú para a consoada, consoada? Que é isso?

Bom, seriam uns rebuçados e um pouco de pão,

E um copo de leite,

E um pudim de ovos,

bem, se não houvesse ovos, talvez uma “hudi-sona”,

com um café, ou um chá para enganar.

São isto os sonhos do Natal, do menino Jesus, - e do menino de Timor- deitado numas palhinhas, naquele presépio pequenino feito em casa com muito amor, e com luz de uma vela. O presépio tem luz…

Mas deixemo-nos de sonhos e poesia barata, pois temos que ir ver o Mau Buti que está a chorar, ele ficou coberto de pó quando um Jeep Hummer de vidros escuros passou mesmo junto da palapa e a nuvem de pó, encheu todos os buracos da casa.

mco

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015


ANTES DO ANO ACABAR E UM NOVO COMEÇAR…

 


 

Antes do Ano de 2015 acabar e o novo 2016 começar…deveremos calcular o positivo e o negativo do ano que vai findar. Neste exercício de avaliação, alguns pormenores irão ser esquecidos, mas se tudo fosse referido, necessário seria um Diário, como aqueles que são obrigatórios a bordo de qualquer navio e isso requereria no mínimo um livro com 365 folhas ou 730 páginas, o que além de muita página seria também muita “fruta”.

Mas, nesta ideia de avaliação de um ano, sobre o positivo e o negativo da vida no dia a dia e antes de começar a compor o nosso documento contabilístico, deve-se perguntar: -  o quê primeiro?  os bons ou os maus acontecimentos?

Vou começar pelos maus acontecimentos, e esses são por ventura os mais dolorosos pois que tem a ver com os familiares ou amigos que foram para não mais voltar e nos deixaram, pela sua ausência, mais pobres.

Essa viagem sem volta, suscita velhas dúvidas, dúvidas essas que por serem dogmas não devem ser discutidas e por isso as perguntas nunca formuladas em voz alta, são agora apenas sussurros, ou somente pensamentos: “para onde foram?” “haverá algo depois de tudo isto?” “voltaremos a encontrar-nos?”

A verdade é que em breve o pó voltará para o pó, verdade indiscutível, e se não for a fé, a dúvida vai voltar, agarra-nos pelos cabelos, rodopia as nossas mentes e deixa-nos caídos, tontos e amedrontados.

Somente a fé pode adormecer as emoções negativas pela perda de conhecidos, alguns de perto, outros de mais longe, e também de amigos, daqueles que podemos chamar “amigos de peito” que me deixaram este ano:

Álvaro de Sampaio Mascarenhas Inglês

Fernando de Carvalho Gonçalves (Fernandinho Gonçalves)

Lucílio José Corbafo

Para os três, a eterna saudade dos que cá ficaram.

 Que repousem em paz.

 

Felizmente que contabilizando os acontecimentos, o HAVER é francamente positivo em relação ao DEVE, pois que a chegada de mais três netos e o Pré-Natal de outros três, dão à vida um sabor de Esperança num futuro risonho para toda a família.

Como inegavelmente positivo foi também que depois de dezasseis anos em que a vida, ou melhor, a má vida, me atirou para longe de Timor, pude ainda que fugazmente regressar em visita à terra onde me fiz homem e onde envelheci e onde também nasceram os meus filhos.

Além de outros pequenos pormenores que não são necessários aqui frisar, o Ano de 2015 foi francamente positivo, e, se depois das badaladas da meia-noite, do dia 31, ainda estiver por cá, poderei juntar a tudo aquilo que foi o ano de 2015, O TER MAIS UM ANO DE VIDA.

 

FELIZ ANO NOVO DE 2016.

TUDO DE BOM PARA TODOS.

SAÚDE.

SORTE.

DINHEIRO.

E ESPECIALMENTE MUITO AMOR, PARA TODOS E PARA TIMOR. 

mco

 

 

 

 

sábado, 5 de dezembro de 2015



 No meu livro “Retalhos de uma vida em Timor”
UM PM EM CUECAS

 
A vida em Timor era um pouco monótona para os militares que não tinham lá família. A vida social era limitada às pessoas que lá viviam, ou àquelas, mesmo militares, que mercê das suas posições e profissões, tinham o privilégio de puderem entrar no selectivo meio social da então Província.
Todo este introito não serve para justificar o que não tinha justificação, mas é talvez uma imagem da vida preconceituosa que se vivia lá.
O contacto dos militares com o meio civil, trazia inúmeras vezes, casos de namoros e de infidelidades, muitas vezes com resultados negativos para os seus intervenientes.
Esta pequena história quase que é uma dessas vezes, mas teve um fim feliz, porque a sorte determinou que tudo acabasse bem.
Um amigo meu, mantinha um namoro casto com uma senhora casada. O marido, segundo ela, rara era a noite que não chegava bêbado a casa e tratava-a muito mal.
Ao fim de muito tempo deste namoro platónico, ele teve por fim um convite para um encontro. Seria numa noite que ela achava propício, porque o marido deveria sair e chegar tarde. O convite era para ele a ir visitar na sua própria casa.
Tudo teria corrido de forma diferente, se por azar, ele nessa mesma noite, não se encontrasse de serviço de ronda à cidade.
Com o desespero por perder o tão desejado convite, pois nessa ocasião as trocas de serviço estavam proibidas, esse meu colega pediu-me que o acompanhasse nessa noite na ronda de Jeep, e o deixasse no local combinado.
Assim, nessa noite, os dois fardados a rigor, saímos no jeep de ronda direitos ao sítio planeado.
Rolamos então na noite quente de Díli, onde os grilos, as rãs e os tokés desafiavam as eternas músicas que a rádio derramava no espaço, com o seu programa de “música a seu gosto”, fazendo horas para o tão almejado interlúdio.
Depois de passarmos duas vezes em frente de determinada casa e depois de complicados códigos que identificavam os intervenientes na marosca e davam como livre a costa.  Deixei então o meu amigo e parti para uma ronda que tinha sido estipulada em cerca de uma hora, antes de voltar novamente para o recolher.
Essa hora foi aproveitada para fazer a ronda aos paióis que existiam na periferia da cidade e, passada quase uma hora fui-me aproximando do local onde teria que recolher o felizardo.
A noite estava escura, somente a luz que vinha de alguns candeeiros de iluminação pública, que criavam mais sombras do que iluminavam por mor dos ramos das árvores que camuflavam os postes de iluminação, davam um pouco de claridade.
Cheguei no principio da rua com os faróis do jeep   postos em médios que iluminavam apenas uns metros à frente da viatura.
Ao longe perto do sítio combinado para a “operação de resgate do desertor” pareceu-me ver um movimento estranho onde algo branco emergia da escuridão quase total. 
Desconfiado que qualquer coisa não estava bem aproximei-me com o jeep a baixa velocidade e quando achei que a distância era apropriada disse ao condutor que acendesse os faróis no máximo.
A surpresa foi geral. O meu amigo de meias calçadas e cuecas brancas com as botas e farda às costas, fazia gestos desesperados para que apagássemos as luzes do carro.
O resgate que por brincadeira tinha falado, foi mesmo um resgate a sério. Com os faróis apagados aproximamo-nos do local onde ele estava e depois de ele ter entra dono jeep arrancámos a toda a velocidade para um local mais seguro, onde ele se fardou a rigor.
A história fácil de contar: “O marido apareceu e o meu colega apenas teve tempo de sair pela Janela, caindo desastradamente numa poça de água que tinha ficado desde as chuvas da tarde.
O susto foi tão grande que ele durante o resto da comissão nunca mais lá voltou.

mco

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015


3 de dezembro de 2015

A MORTE DO CAPITÃO CÉSAR CANUTO EM KUPANG

Fazem hoje 49 anos que morreu em Kupang no palácio do Governador El Tari o Capitão César Canuto

 
Muitas vezes as coisas acontecem de maneira fortuita e a história sofre mudanças por motivo de imprevistos e coincidências.
Uma das famílias que desde os primeiros dias da minha permanência em Timor se tornou minha amiga, foi uma senhora de origem Árabe cujo marido Português de gema, ficara em Timor e lá falecera.
Essa senhora já não era nova, mas era de uma grande simpatia e para ela a palavra amizade tinha significado. Tornámo-nos amigos e quando o trabalho me dava alguma pausa, eu, aliás, como alguns dos meus amigos gostava de a visitar, e por vezes, em feriados ou domingos, fazíamos petisqueiras em sua casa.
Era uma casa tradicional bastante larga, com um grande quintal sempre muito limpo, onde algumas mangueiras frondosas davam boa sombra e boas mangas também. A residência dela situava-se mesmo em frente da praia.
Era uma Sexta-Feira dia 3 de Dezembro de 1966. Um almoço de cozido à Portuguesa tinha sido combinado, para o Domingo seguinte naquele espectacular local, a cem metros do mar e no meio de uma plantação de coqueiros que davam o nome à praia.
Nessa noite depois de um jantar de marisco no A Seng, pequeno restaurante cujo proprietário tinha sempre marisco muito fresco, resolvi ir a casa dessa senhora buscar a lista dos condimentos necessários para o piquenique já combinado.
A minha Suzuki azul de 50c.c. que eu tinha comprado a um cabo de engenharia, estava bem afinada e depois de sair da estrada para a ribeira de Comoro, entrava por um estreito caminho para a praia, voando nas curvas e contracurvas de um trilho onde só cabia as rodas do velocípede, ou os pés de qualquer ser humano.
Os requebros da vereda conjugados com os altos e baixos do terreno davam ao percurso um sabor especial, particularmente durante a noite, quando o negrume que nos rodeava, era cortado pela luz algumas vezes fraca, desses meios de locomoção. Era uma gincana de morte.
Depois de lá ter chegado, um bom café de Timor, retemperou a espírito do esforço de concentração necessário para fazer esse caminho sem nenhum despiste e neutralizou um pouco o excesso de cerveja consumida com os mariscos do jantar.
Aí ficámos sentados no exterior da casa, aproveitando um pouco da frescura vinda do mar, nessa quente noite de Dezembro, enquanto o rádio, nos fazia companhia atirando para o ar, sons que contrastavam com o ruido monótono e repetitivo das cigarras e o coaxar das rãs que se deleitavam nos pequenos charcos deixados pelas cuvas da tarde.
Nessa noite, no éter, para contrariar o usual programa da “Música a seu gosto” da rádio Díli, diluía-se a música Keroncong da rádio Kupang, capital da vizinha parte Indonésia da ilha de Timor.
Essa música segundo os entendidos é proveniente do fado, e é certamente pela sua melodia e argumento, diferente da música tradicional destas paragens.
Dizem que os marinheiros Portugueses que chegaram e dominaram estes mares entre 1512 e 1596 trouxeram com eles instrumentos musicais que mudaram os sons e, portanto, a música.
Um pequeno violão cujo som era um “krong” “krong” tornou-se conhecido pelo nome de Keroncong e deu o nome ao estilo musical, enquanto nas ilhas Hawai tomou o nome de Ukelele. Tudo isto, eu ia aprendendo com a minha amiga, enquanto sorvia o cafezinho e me deliciava com o ambiente morno e difuso da noite.
Por volta das dez horas, pensava já em regressar ao meu quarto de palapa, no seio das instalações da minha companhia, quando bruscamente os mágicos sons musicais desapareceram, e em seu lugar uma voz bem timbrada lançou para o ar o que parecia ser um noticiário.
A minha interlocutora chegou-se mais para a telefonia procurando não perder nada do que era dito. Confesso que fiquei admirado pois nunca pensara que ela falasse a língua Indonésia, e a pergunta saiu fluente e coerente: - Você fala indonésio? Ela com um Shiuuu, perentória, cortou-me qualquer veleidade de continuar.
Confundido com a sua atitude, e porque não compreendia aquilo que ouvia na rádio, tomei muita atenção à sua expressão facial.
Algo se passava que a fez ficar agitada, pronunciando palavras que eu não entendia.
Levantei-me e ela fez-me sinal para que me sentasse.
Quando depois de alguns momentos que me pareceram uma eternidade ela falou, ela estava com uma cara aterrada.
– Mataram o capitão Canuto na residência do Governador de Kupang. Que desgraça! vem aí a guerra.
Disse num ápice sem parar para respirar.
Acalmei-a procurando compreender o que se passara.
Depois de breves momentos de luta contra a angustia que a dominava, ela, que como qualquer de nós sabia que as relações entre Portugal e a Indonésia estavam muito tensas, tentou explicar atabalhoadamente aquilo que eu já sabia sobre a missão do capitão Canuto.
Fiz-lhe a pergunta objectiva: - A que horas aconteceu? A resposta dela deixou-me convencido da urgência de comunicar a alguém o que se tinha passado: - Segundo o noticiário isso aconteceu cerca das nove e meia da noite de hoje. Disse ela.
Disse-lhe que continuasse a ouvir as notícias que eu voltaria e pegando no meu cavalo de 50 c.c. voei direito à casa do meu comandante. Quando saí acelerado de casa ainda a ouvir dizer verdadeiramente aterrada: - Eles dizem que ele se suicidou, mas foram eles que o mataram.
O capitão Canuto acompanhado de um sargento Timorense tinha ido com a missão de receber três militares Portugueses, que haviam debaixo de uma grande bebedeira, entrado num beiro sem remos e sido arrastados pela corrente para uma ilha Indonésia onde ficaram presos.
Nessa altura na Indonésia ocorria uma revolução e eles foram julgados espiões, mas por fim a Indonésia passada esse momento de guerra interna devolvia os militares a Portugal.
 
Conforme histórias que corriam e eu apenas relato o que todos falavam que o Capitão tinha partido com receio pois que ele era o comandante do Centro Cripto do Comando Militar de Timor, o que equivale dizer que era conhecedor de segredos militares, e poderia ser considerado pelos Indonésios como um espião, ou mesmo tentarem tirar dele informações dos serviços que comandava.
O acontecimento não teve consequências de maior para a Província. O governo de Kupang entregou o corpo do Capitão ao governo de Timor. Os militares Portugueses presos em Jakarta foram entregues na fronteira a uma patrulha da Polícia Militar Portuguesa.
Sobre a autópsia do capitão Canuto, nada transpirou de oficial para o domínio público, mas nas varandas corridas de Timor onde os mosquitos rivalizavam com a má língua, dizia-se que a autópsia do capitão determinara que o tiro tinha entrado na cabeça dele, detrás para a frente e de cima para baixo, posição bastante incómoda para quem se quer suicidar

mco

sexta-feira, 11 de setembro de 2015


O DÓLAR E A ECONOMIA EM TIMOR.

10 de Setembro de 2015


Da minha recente visita a Timor, depois de dezasseis anos de saudade,  (fui obrigado a abandonar essa minha Pátria  de coração com toda a família em Junho de 1999) fiquei com a impressão de que a vida lá  não corria tão bem com seria de desejar.
Díli, capital da nova nação (as capitais são por vezes o espelho da nação) era uma cidade diferente daquela que deixei, e com franqueza tirando os edifícios novos que foram construídos em substituição dos queimados e outros que são produto das necessidades administrativas inerentes a um Pais novo, (como Embaixadas e outros edifícios comerciais,  necessários, num local em que durante anos se registou a estadia de centenas de estrangeiros), pareceu-me uma cidade diferente descaracterizada sem a beleza que sempre teve, mas é  talvez o preço a pagar por ser agora capital de uma Nação.
 A par dessa pequena observação sobre a cidade propriamente dita, em função da sua nova arquitectura, o factor humano chocou-me profundamente.
A ausência de amigos e conhecidos, (muitos morreram, e outros mudaram de cidade ou Pais)  a invasão da cidade por muitas e diversas raças, que chegam para caçarem os dólares dos mais ricos e dos mais pobres (e que servem de exportadores desse dinheiro para os seus países de origem, como Indonésia, Índia, China, Coreia, Portugal, Austrália etc. etc.) tornaram para mim essa cidade outrora, amiga e hospitaleira, em que todas as pessoas se conheciam, num local, cheio de caras novas e desconhecidas.  
Cheira a pó e a dinheiro. O pó levantado pelos carros que passam nas ruas de terra batida, e cheira a dinheiro, porque muitos desses carros de alta cilindrada, cheiram a isso mesmo. Por outro lado as casas também aqui tem classes sociais. As "palapas" continuam a existir, sô que agora onde outrora existiam outras do mesmo género, erguem-se altos muros que encerram vistosas vivendas que pedem meças a quaisquer mansões de outros países ricos.
Enfim, é o petrodólar que anda nas mãos de todos e que se escoa por entre os dedos de alguns, como água, para fora do país,  criando a ilusão, de que todos são ricos e de que esses mesmos dólares chegam para todos.
Ilusão ou não, fiquei ouvindo as conversas de Timorenses que tem que fazer chegar esses dólares para tudo, casa, água, electricidade, transporte, comida (altamente inflacionada) roupa, para eles e filhos, despesa com a escola dos filhos, pois só alguns, poucos, podem pagar escolas onde os filhos aprendam o Português, e como falo o Tétum, fui captando os sinais de desânimo nas vozes de alguns, de resignação nas vozes de outros, e quando falavam comigo a pergunta ou a questão era invariavelmente o passaporte Português para poderem emigrar de preferência para a Inglaterra.
Fiquei com a sensação de que a vida no tempo da rupia Indonésia, não por ser Indonésia, mas por ser uma moeda fraca tornava mais fácil para este povo a sua existência. Será impressão minha ou o curto espaço de tempo que permaneci em Timor, uma semana, foi pouco tempo para compreender melhor a economia local? 
 Não sou um conhecedor profundo da matéria de economia mas dentro daquilo que é o meu pouco conhecimento sobre o assunto, fico pensando se a imposição do uso do dólar Americano em Timor Leste terá sido benéfico para a Nação.
 A resposta, como as moedas, terá duas faces que não são iguais.
Os interesses internacionais da criação  de uma zona sob a influencia económica/politica Americana e também os interesses de comerciantes e empresários pela facilidade que teriam em transacções  internacionais, além  da estabilidade comercial na exploração do petróleo por uma companhia Americana, evitando assim oscilações de uma moeda nova sem base de riqueza que garantisse o seu valor, tornaram sem dúvida o dólar Americano, a moeda ideal para a novel nação.   
Porém por outro lado, o nível de vida motivado por o dólar ser uma moeda forte, determina diferenças na sociedade, onde, os mais ricos (comerciantes, empresários, altos funcionários e políticos) tem um poder de compra maior para os produtos importados. O povo esse, que na sua grande maioria, 90 por cento ou mais, vivem da venda de produtos agrícolas, tentam nivelar o preço desses produtos locais pelo valor de venda dos produtos importados. Essa tentativa determina que o poder de compra do povo cai, e nos mercados locais, o regatear dos preços tornou-se uso diário. Não existe um preço fixo, o que criou no mercado dois preços para o mesmo produto, (O preço regateado e o preço para os que tem aspecto de estrangeiros mesmo sendo Timorenses). Dizia-me um amigo, em Díli, "para ir ao mercado deve-se levar roupas velhas e se forem rotas melhor, os preços descem logo".

Um exemplo flagrante dessa politica de regateio foi para mim visível uma vez que andei de Táxi (carros muito velhos e sem condições) e que me foi pedido por uma corrida, três dólares. Por fim como resultado do regateio feito por um amigo Timorense que seguia comigo, baixou para um dólar. Dizia-me ele depois: se eu fosse sozinho o preço seria um dólar mas como o "malai" também vinha no carro,  o preço  subiu logo. 
Para além das vantagens e desvantagens da utilização do Dólar Americano que se descobrem a olho nu, há uma desvantagem que me parece muito importante:
Sabendo que a economia real de Timor, tirando o petróleo e o gaz, se deve basear na agricultura, mar (pesca e produtos marinhos) e turismo, o uso do dólar como moeda forte, é um factor que poderá atrasar esses objectivos, especialmente o Turismo.
A Indonésia é um pais muito rico no turismo e uma grande força dessa riqueza é a ilha de Bali, que só por si, dá 90%  do orçamento da nação, nesse sector. 
Se viajarmos até lá e verificarmos com atenção, encontramos uma multidão de Australianos que vão deixando lá milhões e milhões de dólares todos os anos. A pergunta que eu faço, é: porquê  lá e não noutros locais como Timor?
 Mesmo em Timor as estruturas turísticas não estão ainda desenvolvidas o suficiente, mas no futuro quando elas forem já uma realidade, a questão da diferença do dólar Americano e do dólar Australiano (AU $1.000  por USD $500/600) irá ter uma grande importância pois é muito diferente para o turista trocar dólares Australianos por dólares Americanos ou trocar dólares  Australianos por rupias Indonésias (AU $1.000 por RP. 10 MILHÕES).
 Se a moeda Timorense fosse uma moeda mais fraca, Timor com a sua beleza natural, poderia desviar uma boa parte do turismo Australiano.  Sendo a moeda Timorense o dólar Americano,   Bali terá sempre vantagem pois que  um turista que use o dólar Americano ou Australiano, ao trocar o dinheiro em Bali por rupia Indonésia tem um grande aumento do poder de compra, o que não acontece em Timor.
 Será (por todo este meu raciocínio) o dólar Americano no presente e no futuro é um bem para TIMOR?  

domingo, 13 de julho de 2014

Mau Kuro de Kukara e o “patrão Álvaro”


Morreu hoje mais um Homem que pela sua magnitude e carisma era daqueles de devia ser eterno. Álvaro de Sampaio de Mascarenhas Inglês de seu nome viveu neste mundo em que o negativismo impera, como uma candeia acesa indicando o caminho da paciência e da alegria a todos os que o conheciam, ou que de perto privavam com ele. Conheci-o na povoação da Hatolia, Timor, onde por imposição do meu trabalho o fui encontrar. Nascido em Díli e criado na sua terra natal, era fazendeiro, pois possuía uma pequena propriedade de café, que sua esposa D.Lusitana herdara de seu pai. Depois da invasão da Indonésia, refugiou-se em Atambua, uma pequena povoação no território Indonésio, para onde se tinha retirado com a sua numerosa família. Aí permaneceu fugindo da guerra que grassava por todo o território de Timor, até conseguir ser repatriado para Portugal e daí para Darwin onde viria a falecer.
O seu nome ficará como uma lenda entre o povo da Hatolia e apesar dos anos os velhos ainda falam no “patrão Álvaro” e decerto relatam para os mais novos as histórias que ele semeou naquela terra. Eu lembro-me bem do Mau Kuro da povoação de Cucara, o mais velho trabalhador da Fazenda Nossa Senhora de Fátima, nome da sua propriedade. Tão velho que só o cajado o fazia descer da montanha onde vivia, uma vez por ano, em 13 de Maio, dia de Festa na Fazenda, quando todos os trabalhadores e mesmo não trabalhadores comiam e bebiam o que o “patrão Álvaro” preparava para eles, depois da missa campal, em frente do nicho da Senhora de Fátima.
O Mau Kuro comia e bebia animado e todos os anos se repetia a mesma cena. Ele antes de voltar para sua casa pedia ao “patrão Álvaro” que lhe desse o remédio que lhe daria forças para voltar no ano seguinte. E isto passava-se todos os anos e durante muitos anos. Então o “patrão Álvaro” ia buscar um comprimido de Aspirina que o velho bebia, com contentamento, pois ele tinha a certeza que voltaria no ano seguinte. E a realidade era que no ano seguinte, agarrado ao cajado com o corpo mais dobrado ainda, ele lá estava, reclamando de novo pelo remédio que lhe daria mais um ano de vida.